Arquivado em: Por Mariana Albanese
Andava ontem pelas ruas do Crato, cansada e preocupada, fugindo um pouco do escritório para respirar.
Tomei o caminho do Sesc por uma rua não muito organizada, com armazéns e bares, e dei de cara com o que Chico Buarque chamaria de “nego torto”: um pobre coitado bêbado e esfarrapado. Virei para desviar, quando ouvi: “ei loirinha, você não vai para Nova Olinda?”.
Medo.
Isso me lembra de contar o tanto que minha profissão é inútil aqui. Toda vez que vou contar uma novidade, principalmente sobre mim, já estão todos sabendo. Domingo teve festa. Inútil dizer que segunda-feira o relatório já estava pronto.
Seriam os caririenses mais fofoqueiros que o resto dos seres humanos? De forma alguma. Se os paulistanos tivessem tempo, fariam a mesma coisa. A diferença é que, quando você divide a cidade com mais 10.999.999 pessoas, fora as que vêm do interior todo dia, a gama de histórias é maior e uma vez na vida, outra na morte, alguém se mete a contar o que viu.
Porque eis o ponto chave: ver, todo mundo vê. Se andamos em público, temos nossa platéia. A diferença é a necessidade que os espectadores têm em passar adiante o que viram.
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