Eu não disse?


Eu não trabalho
Sexta-Feira, 15 Agosto 2008, 3:21 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Nunca passou pela minha cabeça não trabalhar. Não precisava sustentar a família, nem sequer dar um tostão em casa. Tinha 16 anos quando vi um anúncio numa loja do shopping Eldorado, dessas especializadas em produtos esotéricos. Contratada, fiquei apenas um dia: uma pressão das outras vendedoras, que não queriam dividir a porcentagem delas com mais alguém, me fez perder a paciência.

Aos 17, terminando a escola, fui convidada para trabalhar lá, junto com uma amiga que mereceu tanto quanto eu, a Nô, minha companheira de jornal.
Dali pra cá já se vão quase nove anos de vida profissional. Passei por tantos lugares que temo perder a conta. Poucos realmente fizeram a diferença.
Em quase todos, meu maior questionamento era o mesmo: horário. Eu podia ficar até mais tarde, mas não podia chegar mais tarde.

No Almanaque foi um ano de guerra. Não havia nada que me desse tanta satisfação quanto trabalhar lá. E quase todo dia era a mesma história, meu chefe furioso porque não cheguei às nove.
Para estar lá a essa hora eu tinha que sair de casa às oito, pegar 40 minutos de metrô, mais 20 de caminhada para chegar e sair dele. O mesmo se repetia de noite. Quando eu trabalhava só as oito horas exigidas, passava onze dedicada ao emprego: duas pra ir, oito pra trabalhar e uma para almoçar. Esse processo me custava cerca de 20 reais diários.
Eu venerava meu trabalho, mas gostava mais da minha vida, e saí.

Hoje não trabalho mais. Eu vivo. Não tenho chefes, tenho orientadores profissionais. Tucanês? Não. Ninguém está lá para mandar ou impor. Todo mundo trabalha para o mesmo fim. Se não der certo, uma infinidade de pessoas sofrerá por isso. Então, só resta a opção de fazer funcionar. E eu respeito demais a história que eles já construíram na Casa Grande, e tudo o que têm a me ensinar.
Por fim, eu não trabalho, eu recebo uma bolsa para aprender.


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Mariana, me senti na obrigação de responder a este post quando vi que você o escreveu na data do meu aniversário – e este dia, como tem sido todos os outros deste segundo semestre, foi de indagação e ponderação sobre o valor da labuta. Deve ser gratificante participar de uma entidade como a Fundação Casa Grande. Creio que você se sinta tão íntima dessa realidade que um buraco se abriria em você caso você saísse dela [bom, não sei como você está se sentido a poucos dias de ir para São Paulo...]. Engraçado foi perceber que nós somos de realidades muito diferentes [ao contrário de você, eu comecei a trabalhar para sustentar a casa], mas em um ponto elas se encontram: penso que o trabalho deve ser, acima da obrigação, uma escola. Porque se a gente pára de aprender, então a vida perde seu sentido. Fico feliz por você se sentir assim e desejo muita sorte na sua nova jornada – que ela possa também te proporcionar essa bolsa para aprender.

Comentário por Edwirges




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